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domingo, 25 de agosto de 2013

Loucura


A Fabricação da Loucura - Parte # 3

Neurotipia
Em Psicologia, Psiquiatria, Neurologia e áreas afins, diz-se neurotípico do indivíduo que não apresenta distúrbios significativos no funcionamento psíquico.
É um conceito um tanto impreciso, visto que não é possível determinar um padrão normal de funcionamento psíquico do qual os desvios fossem considerados doenças ou transtornos mentais.
Por outro lado, é consenso entre os especialistas que todas as pessoas apresentam problemas emocionais, comportamentais, sentimentais etc., em graus e durações variáveis, não sendo isto, portanto, critério suficiente para diagnóstico de qualquer distúrbio. Daí que entram na análise alguns factores bastantes subjectivos, como adequação ao convívio social (depende de como família, amigos, professores, colegas de escola ou de trabalho relatam a interacção com o indivíduo em questão e das normas, sempre questionáveis, impostas em cada situação) e, principalmente, do sofrimento relatado pela pessoa em consequência do problema.
Ainda assim, é um conceito útil, servindo de referência como resultado aceitável para o tratamento do paciente.

 Lobotomia
O enorme escândalo da leucotomia e da lobotomia chegou ao fim no início dos anos 50, não por alguma reserva ou reviravolta médica, mas porque um novo instrumento – os tranquilizantes – tornou-se disponível, sendo apresentado (como acontecera com a própria psicocirurgia) como totalmente terapêutico e sem efeitos colaterais. Se há ou não grande diferença, neurológica ou eticamente, entre a psicocirurgia e os tranquilizantes é uma questão incómoda que nunca foi encarada de verdade. Se administrados em doses maciças, os tranquilizantes certamente podem, como a cirurgia, induzir à ‘tranquilidade’, acalmar as alucinações e ilusões do psicótico, mas a calma a que induzem pode ser como a serenidade da morte – e, por um paradoxo cruel, privar os pacientes de resoluções naturais que podem ocorrer com psicoses, enclausurando-os, em vez disso, numa doença vitalícia causada pelas drogas

sábado, 24 de agosto de 2013

A Fabricação da Loucura - Parte # 2

Em 1952, o DSM-I [O Manual Diagnóstico e Estatístico, da Associação Americana de Psiquiatria] listou 112 distúrbios. Em 1968, o DSM-II listou 163 distúrbios. Em 1980, o DSM-III listou 224 distúrbios. Na década de 80, psiquiatras calcularam que um em cada dez americanos estava mentalmente doente. Na década de 90, um em dois. Em breve serão todos"... "Apesar de, certamente, haver pessoas que precisam de medicação ou internamento psiquiátrico para evitar que façam mal a si mesmas e aos outros, esse número está longe de um americano em dois, ou dez, ou cem. Para a maioria, a infelicidade pessoal, conflitos de grupo, incivilidade crassa, promiscuidade flagrante, crime epidêmico e violência orgiástica são produtos não de uma sociedade mentalmente doente, mas de um sistema que - por falta de um estadista visionário e de virtude filosófica - permitiu e estimulou a sociedade a se tornar virtualmente perturbada.

Nm estudo sobre os 170 membros do painel que produziu os critérios de diagnóstico do DSM-4 (publicado em 1994), 56% tinham vínculos financeiros com empresas farmacêuticas (Nos painéis sobre transtornos de humor e esquizofrenia, 100% dos especialistas tinham ligações com a indústria farmacêutica).
A indústria é impulsionada pelo imperativo económico para manter lucros elevados através de manutenção e da expansão contínua de seus mercados. E o DSM desempenha uma função chave nesse processo expandindo a lista de categorias de diagnóstico a cada nova edição.
A indústria farmacêutica é uma das indústrias mais rentáveis do mundo - com vendas globais alcançando US$ 400 bilhões por ano. Os medicamentos psicotrópicos desempenham um papel fundamental nos lucros, com os cinco primeiros SSRIs rendendo entre US$ 1 bilhão e US$ 3 bilhões por ano, apesar de as drogas serem quase idênticas.

Antes do tratamento, os pacientes diagnosticados com depressão, esquizofrenia e outros transtornos psiquiátricos não sofrem nenhum “desequilíbrio químico”. No entanto, depois que uma pessoa passa a tomar medicação psiquiátrica, que perturba a mecânica normal de uma via neuronal, seu cérebro começa a funcionar... anormalmente." ...
O número de doentes mentais incapacitados aumentou imensamente desde 1955 e durante as duas últimas décadas, período em que a prescrição de medicamentos psiquiátricos explodiu e o número de adultos e crianças incapacitados por doença mental aumentou numa taxa alucinante. Assim, chegamos a uma pergunta óbvia, embora herética: o paradigma de tratamento baseado em drogas poderia estar alimentando, de alguma maneira imprevista, essa praga dos tempos modernos?

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Fabricação da Loucura - Parte # 1

Uma pessoa pode ser considerada divergente apenas porque sua conduta difere de uma norma socialmente aceite, mas também porque difere de um ideal moralmente aceite. Assim, embora um casamento feliz seja provavelmente excessão e não regra, a pessoa solteira ou infeliz no casamento é muitas vezes considerada anormal e socialmente divergente. Há tempos atrás, quando a masturbação era indiscutivelmente tão frequente quanto hoje, os psiquiatras consideravam essa prática como um sintoma e causa de insanidade. Portanto, a divergência social é um termo que abrange uma vasta categoria. Que tipos de divergência social são considerados como doenças mentais? A resposta é que são aqueles que provocam uma conduta pessoal que não está de acordo com regras de saúde mental psiquiatricamente definidas e impostas. Se a conduta calma é uma regra de saúde mental, a depressão e a excitação serão sinais de doença mental.

Colocada a loucura diante da razão como desrazão, e essa como monstruosidade (idade clássica) ou doença mental (modernidade), tem-se, então, que o louco e a loucura são, de certo modo, produzidos. A loucura é produzida pela razão, que, em sua normatividade, através de seus enunciados discursivos, define como 'loucura' tudo o que não corresponde à imagem que a razão tem de si mesma. Ora, esta é a questão que está na base do discurso moderno, que toma o louco como um monstro-animal e o transforma em doente mental/humano. A medicalização, por sua vez, representa um momento mais subtil de privação da experienciada loucura, na medida em que o conceito de doença mental permitirá constituir a noção de 'sujeito juridicamente incapaz', 'inofensivo' ou, então, 'perigoso'.
Tornando o louco um doente, a sociedade moderna de facto evita o aprisionamento do louco, mas aliena-o de si mesmo, despoja-o de sua humanidade, e, mais do que isso, de sua humanidade social, isto é, de seus direitos. E isto realiza-se em função de um conceito básico que antecede toda definição de doença: o conceito de cidadão. Com a medicina, o louco é excluído da comunidade da razão,da comunidade dos homens como sujeito possuidor de direitos. Deste modo, medicina e jurisprudência estão de mãos dadas, forjando uma exclusão, de tal modo que, sem exageros, pode-se dizer que, na sociedade moderna, o 'atestado do médico' é o 'cacete' com o qual se reprime o louco.