sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
O Irão - A destruição final do inferno
E igualmente um inferno temporário que aparece no Irão por volta dos fins do primeiro milénio antes da nossa era. Mas trata-se aí de crenças mais optimistas, em que o mal está destinado a desaparecer. Desde o século vII a. C., as antigas crenças iranianas, na medida em que podemos reconstituí-las, sugerem a ideia de uma retribuição e de uma punição depois da morte8. Antes de alcançar o paraíso, a alma realiza uma viagem, atravessa a esfera celeste (humat}, a esfera lunar huxt) e a esfera solar (huvarst}. Segundo uma outra versão, encontra o seu anjo-da-guarda ou espírito tutelar, a daênã, que é belo ou feio conforme a vida que levou. Alguns textos do mesmo período evocam um interrogatório depois do qual uma rapariga, acompanhada por dois cães, conduz a alma a uma passagem onde está a ponte do mundo celeste, e em que reina Ahura Mazda. Essa ponte tem por vezes o aspecto de uma espada: a alma justa atravessa pelo lado mais largo, a alma pecadora passa sobre o fio, mas diz ainda o texto «que see o caminho lhe for cortado, a cabeça cai-lhe do alto da ponte nos infernos e aí sofre todos os males possíveis».
Esta ideia ainda muito vaga dos castigos é esclarecida pêlos escritos de Zoroastres ou Zaratustra. Personagem histórica, cuja vida permanece rodeada de alguns mistérios, esse padre do século II a. C. teria entrado em conflito com a religião tradicional que ele modificaria pelo seu modo pessoal de ensinar. Zaratustra é, com Buda, Jesus Cristo e Maomé, um dos grandes fundadores religiosos da história humana. A sua doutrina, o masdeísmo, está presente nos textos do Avestá, que alguns dos mais antigos, como os gathas, directamente lhe atribuíram, enquanto outros se revelaram como seus continuadores. O masdeísmo assenta sobre um dualismo fundamental, que tem em conta o lado bom e mau que cada um pode manifestar durante a sua existência: Ahura Mazda, o deus bom, criou tudo o que é o bem, enquanto Angra Mainyu, o deus mau, criou tudo o que é o mal. Os homens, como o mundo inteiro, dividem-se entre essas duas entidades e o seu destino futuro depende das escolhas que se fizerem na terra.
Na hora da morte, a alma separa-se do corpo, e, sendo apenas espírito, não é menos capaz de sentir, sofrer, gozar e deslocar-se no espaço, o que deixa supor que se trata de uma espécie de corpo subtil. Durante três dias, permanece junto do cadáver, na expectativa do julgamento, que terá lugar no quarto dia; segundo um dos textos, o «Hadokht nask», a alma injusta vive angustiada ao longo desses três dias. Mas, no começo do quarto, ela põe-se em marcha, escoltada por alguns demónios e por bons espíritos, comparece depois diante dos três juizes, Mihr, Rashu e Srôsh, que pesam as suas acções numa balança de oiro; em seguida, deve franquear a «ponte do retribuidor», que prolonga os infernos. Imagine-se o que se segue: a alma má, sacudida pêlos demónios, sofre de vertigens, porque a ponte se estreita, não existe parapeito e a altura é considerável, mergulhando assim no inferno. Noutras versões, a alma culpada desperta ao quarto dia no meio de cheiros pestilentos e a sua daênâ, cheia de raiva, que representa as suas más acções, condu-la directamente para o inferno, nas «trevas infinitas»11. E aí espera-a uma sorte terrível: «Longa permanência no meio das trevas, má alimentação, gritos de angústia, será essa a vida que lhe terá valido as suas próprias acções inimigas da fé.»12 Os gathas, sem definirem ainda os sofrimentos dos condenados, interrogam-se:
Diz-me, ó Poder supremo,
O que é, o que será,
O que merece o homem justo,
E o outro que agiu mal;
Como são julgados os seus actos,
Como são julgados os seus corações,
Perante Ti, Juiz supremo!
Diz-me, ó Poder supremo,
Como é que o criminoso
Receberá o seu castigo,
Por ter encorajado
Aqueles que causam mal à vida,
Que oprimem o rebanho
E deixam o trabalhador
Sem recursos e sem ajuda!
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
O Inferno Egipcio
OS PRIMEIROS INFERNOS PARA CONDENADOS: OS INFERNOS TEMPORÁRIOS
É impossível determinar quando e onde apareceu a ideia de uma diferenciação dos infernos, ligada à noção de recompensa e de castigo, ou seja, de bem e de mal. Nas religiões antigas, que não se apoiam num texto conhecido, o bem e o mal relacionam-se acima de tudo com a ordem social, estando esta mesma ligada à ordem cósmica. O mal é o que concorre para destruir a ordem social, intimamente ligada à ordem divina. Ora, se os culpados de atentarem contra essa ordem são castigados na terra, todos eles acabam por sofrer a morte como destino comum. E, dado que se admite uma sobrevivência depois da morte, os maus continuariam a existir tal como os bons e a sua existência seria um constante desafio à ordem cósmica que exige o seu desaparecimento: é essa a ideia de uma -segunda morte», frequente nas antigas civilizações. Mas antes da aniquilação vêm os castigos divinos, que reproduzem no Além, no Absoluto, o processo terreno da punição-execução, apenas cumprida nesta vida de modo imperfeito: o sofrimento revela-se limitado, a morte é passageira. No outro mundo, são os deuses que infligem esses castigos.
O inferno egípcio: a desintegração dos condenados
A preocupação sobre o Além é importante para um egípcio como se revela em inúmeros textos, que vão da segunda metade do terceiro milénio ao período demótico do começo da nossa era, tal como em milhares de pinturas murais1. Durante três mil anos, os egípcios elaboram um refinado sistema escatológico, composto por diversas camadas de crenças que se confundem e quase se contradizem. Reside aí um traço comum a todas as concepções antigas do Além: razão, sensibilidade e imaginação acumulam-se no espírito dos homens inquietos.
Até onde é possível verificar, sabe-se que os egípcios acreditaram na sobrevivência dos mortos num mundo semelhante ao nosso, em que todos conhecem o mesmo tipo de existência, de forma atenuada e susceptível de uma progressiva degradação. O defunto vive no seu quadro habitual, utiliza os mesmos móveis e os seus objectos pessoais, mas as diferenças sociais são abolidas; todos trabalham na terra, mesmo o faraó, como se descreve nos frescos de Medinet-Abu, onde se vê Ramsés III conduzir o arado. Essa aparente igualdade perante a morte supõe todavia o cumprimento de alguns ritos funerários complexos de conservação do cadáver, sendo aqueles melhor assegurados se se pertence a uma classe abastada.
À entrada na morte, após uma viagem complexa através de montanhas e pântanos, lagos de fogo e muralhas, cujo mapa está por vezes representado sobre o sarcófago, o defunto sofre a prova capital do seu julgamento. A cena, tantas vezes representada, é bem conhecida: Anúbis procede à pesagem do coração, cujo resultado é registado por Tote, depois o defunto comparece diante do tribunal de Osíris, assistido por quarenta juizes, um por cada região administrativa. Recitam-se então as fórmulas do célebre Livro dos Mortos, passando em revista todas as más acções e declarando as que não cometeu: «Não cometi nenhuma fraude contra os homens. Não atormentei a viúva, nem menti perante o tribunal. Não conheci a má-fé. Não impus a qualquer capataz que os trabalhadores fizessem mais do que deviam fazer em cada dia. Não fui negligente. Não fui preguiçoso. Nunca cometi o sacrilégio. Não prejudiquei o escravo junto do seu amo. Nunca passei fome. Nunca chorei. Nunca matei. Nunca roubei as ligaduras ou provisões dos mortos. Nunca usurpei a terra. Nunca tirei o leite da boca das crianças. Nunca desviei um canal. Eu sou inocente! Eu sou inocente! Eu sou inocente! (...) Ó juizes, neste dia de julgamento supremo, deixai que o defunto regresse, porque ele não cometeu qualquer pecado, nunca mentiu nem praticou o mal, mas viveu no seio da verdade e alimentou-se da justiça. Os homens dizem o que ele fez e os deuses regozijam-se (...). A sua boca e as suas mãos são puras.»
Que significa esta litania que se faz acompanhar de fórmulas de auto-satisfação? Não se trata, claro, de uma tentativa para iludir os juizes, fazendo passar-se por um justo e negando as suas faltas. A frase de introdução nessa fórmula — «separação de X com todo o mal que fez» — leva a pensar que tal recitação equivaleria a uma purificação, rejeitando o defunto para lá de si mesmo todas as formas do mal
De uma civilização a outra, a lista dos pecados revela-se notavelmente constante: negligenciar os deveres para com a divindade, roubar, matar, cometer o adultério, enganar os outros, lesá-los seja de que maneira for, mentir, não ser de um modo geral solidário com os outros homens. Essas faltas não podem ser sancionadas na terra porque muitas delas são secretas e deve livrar-se delas após a morte. A declaração de inocência do Livro dos Mortos seria assim o equivalente de uma confissão e de uma renúncia a todas as formas do mal. Mas é também o reconhecimento da culpabilidade geral dos homens: cada qual cometeu essas faltas pelo menos uma vez na sua vida. Mas observemos aqui o papel do defunto: cabe-lhe mostrar que renuncia ao mal e isso mesmo depois da sua morte, porque esta não é o ponto final para lá do qual nada se pode mudar; o defunto não é um acusado passivo que aceita o julgamento, sem defesa, tal como aparecerá noutras religiões. Alguns egiptólogos pensam que esta cena do julgamento seria um rito de purificação que se realizaria algum tempo antes da morte, com a participação do moribundo.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
As primeiras descrições do Inferno Cristão - O Apocalipse de Pedro
Uma inquietude reina nas comunidades cristãs iniciais, agravada pela crença num próximo fim do mundo. Qual será a sorte dos maus depois do julgamento final? A imaginação dos primeiros fiéis, estimulada palas reflexões judaica e gnóstica, vai preencher as lacunas das Escrituras numa abundante literatura apócrifa, em que a imagem do inferno melhor se define.
Desde a conclusão dos livros canónicos, multiplicam-se os escritos complementares. A Didaqué, composta entre os anos 100 e 150 na Síria, é um dos mais antigos resumos da doutrina cristã, que por vezes foi atribuído aos apóstolos e alguns conferiram-lhe uma importância idêntica à do Novo Testamento. O texto foi redescoberto apenas em 1883, a partir de um manuscrito grego de 1057, mas revela-se ainda muito sóbrio no que respeita à escatologia: o regresso do Senhor, anuncia-se aí, a parusia, está próximo, «e então qualquer criatura passará pela prova do fogo», muitos hão-de ficar escandalizados e se perderão.
Muito mais pormenorizado é o Apocalipse de Pedro. Redigido entre os anos 125 e 150, na comunidade cristã de Alexandria, sem dúvida por um judeu convertido, esse texto é também muito respeitado na igreja primitiva, a ponto de Clemente de Alexandria no considerar como canónico, tal como o cânone de Muratori, que todavia assinala uma certa contestação a esse propósito. Viu-se excluído do cânone pelo Concilio de Cártago no ano 397, mas foi utilizado pela liturgia da Sexta-Feira Santa nas igrejas da Palestina até ao século V. Perdido durante muito tempo, o conjunto foi reencontrado apenas em 1910 numa tradução etíope e nele se encontra a primeira descrição precisa das penas do inferno, nitidamente influenciada pelo masdeísmo, pelo pitagorismo órfico e pelo judaísmo. Dentro de outra fecunda originalidade, esboça uma classificação das penas segundo os tipos de pecados:
«E eu vi também outro lugar diante desse, terrivelmente triste. Era um lugar de castigo. Os que eram punidos e os anjos que os castigavam traziam vestimentas escuras como o ambiente em certos sítios.
Alguns que ali se encontravam estavam suspensos pela língua, e eram os que tinham blasfemado contra o caminho da justiça, e por debaixo deles havia um fogo intenso que os atormentava.
Havia um grande lago cheio de lama a arder, onde se encontravam alguns homens que se tinham desviado da justiça e os anjos encarregados de os atormentar estavam junto deles.
Outros ainda, em que as mulheres estavam suspensas pelos cabelos sobre essa lama incandescente e eram aquelas que tinham optado pelo adultério.
Os homens que estavam ligados a elas por causa da vergonha do adultério encontravam-se suspensos pelos pés, a cabeça caída sobre a lama, e diziam: “Nunca quereríamos chegar a esse lugar”.
Via carrascos e os seus cúmplices, lançados num lugar estreito, inundado por terríveis répteis. Eram castigados por esses animais e assim se retorciam no seu tormento, tendo ainda sobre eles camadas de vermes que pareciam ser nuvens escuras, E as almas das próprias vitimas estavam ali e assistiam ao suplicio dos seus carrascos, dizendo: “Ó deus, como é justo o teu julgamento”.
Muito perto dali, vi um outro lugar fechado, em que escorria o pus e as imundícies daqueles que eram castigados e formavam uma espécie de logo. As mulheres jaziam no meio dessa sujidade mergulhadas até ao pescoço e diante delas estava um grande número de crianças prematuras, que gritavam e delas partiam jactos de chamas que atingiam as mulheres nos olhos. Eram as mulheres que conceberam fora do casamento e mataram os seus filhos.»
O Apocalipse de Pedro é o primeiro de uma longa e muito longa série de descrições de torturas infernais. Ele dá o tom e será sobretudo o que mais ultrapassará todos os outros na atrocidade dos pormenores. Os agiotas são mergulhados num lago de pus e sangue em ebulição, os falsos testemunhos sofrem o fogo na boca e mordem a língua. Cada qual recebe um castigo adequado e isso acontece já com a presença no inferno das crianças não baptizadas, que sofrem como os outros.
sábado, 11 de julho de 2009
O "Hel" Germânico e nórdico pré cristão
Uma visão de um inferno subterrâneo para todos, sem suplícios, em que as sombras dos defuntos esvoaçam por entre uma fria bruma, predomina no Norte da Europa, sobretudo nos povos germânicos, antes do cristianismo. O mundo dos mortos aí é o hel, ou «lugar escondido», de onde deriva o inglês hell (inferno), o alemão Hölle, (inferno), hehlen (dissimular); é também um buraco, um vazio (inglês Hole, alemão Hölle), enquanto o latim utilizará infernum (lugar bem fundo) nas traduções da Bíblia, e inferi para os infernos pagãos. Lugar subterrâneo, obscuro e frio, o hel, segundo os Dits de Grimnir, é uma das raízes da árvore do mundo, com a esfera dos gigantes e a esfera dos homens. Acede-se aí depois de uma viagem cheia de ciladas, muitas vezes descrita como uma travessia marítima. Envolve-a um grande rio tumultuoso, semelhante ao Oceano dos gregos, e um porto que o permite atravessar. Os próprios Ódin e Freia desceram ao Hel para consultar os adivinhos, mas não puderam franquear a porta. Em princípio, situado ao Norte, na época dos tumultos comunitários, passou depois para Leste pela mitologia germânica, na época dos tumultos individuais. Por volta de
Do mesmo modo, por uma lenta evolução, o walhalla, sombria morada dos guerreiros mortos, torna-se no palácio em que se conhece uma vida esplêndida ao lado de Ódin. O sistema punição-recompensa no Além resulta verdadeiramente de uma longa maturidade, sob a influência de alguns elementos exteriores
Ao mesmo temas encontram-se entre os escandinavos e os celtas pré-cristãos. Mircea Eliade evidenciou a importância considerável entre esses povos, do tema da viagem aos infernos. Os heróis celtas Bran, Cuchulainn, Connia e Oisin deslocam-se numa barca e encontram o deus dos Mortos, Manannan; outros, como Conn ou Nera, descem ao outro mundo através de um trajecto subterrâneo e outros adaptados na época cristã, nas viagens de São Brandão, de Maelduin ou no sonho de São Patrício. Se a terra dos mortos que esses heróis pagãos descobrem se mostra por vezes agradável, a verdade é que nada aí revela qualquer diferenciação de tipo moral. Os obstáculos que se conhecem durante a viagem podem ser comparados a certas provas iniciáticas, permitindo pensar que o acesso aos infernos está reservado aos iniciados. Alguns heróis realizam também certas incursões na terra dos mortos para aí apanharem qualquer objecto precioso, como o inesgotável caldeirão, protótipo do futuro Graal.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Inferno #1
A completa escuridão, o silêncio absoluto, a lama, o pó, os vermes e os bichos reinam nessa morada. Não se desce ai com alegria no coração, como proclama Job: «Não são breves os dias da minha vida? Deixa-me só para que possa ter um pouco de conforto antes de partir, a fim de não mais voltar, para a região das trevas e das sombras da morte, terra de espantosa confusão e trevas, onde a mesma luz é como (aqui) a obscuridade» (Job 10, 20-22).«Esperarei? O sepulcro será a minha morada, nas trevas prepararei o meu leito, direi à podridão: “Tu és o meu pai.” E aos vermes: “Vós sois a minha mãe e a minha irmã.” Onde está a minha esperança? Quem verá a minha felicidade? Descerão comigo ao sepulcro, e nos afundaremos, juntos, no pó» (Job 17, 13-16).
Por seu lado, Isaias declara: «Jazes sobre um leito de gusanos, e a tua coberta são os vermes» (14,11) e no salmo 114,17 diz-se: «Não são os mortos que louvam o Senhor, nem os descem ao sepulcro.»
Estes infernos assim tão negativos e que evocam sempre a condição do cadáver, talvez permitam perguntar se os hebreus acreditam em qualquer forma de sobrevivência. De facto, a condição do defunto revela-se muito próxima do nada, mergulhado no pó, imóvel, sem pensamentos, sem outra espécie de sensação, numa letargia definitiva, em coma eterno. E é essa mesma sorte que espera tanto os bons como os maus: nem julgamento, nem punição, nem recompensa. Como se verifica no Eclesiastes com uma amargura resignada:
«Existe um mal em tudo o que se faz sob o sol
Que é um destino idêntico para todos;
Por isso, o coração dos filhos de Adão está cheio de malícia,
A loucura está dentro do seu coração durante a vida,
E depois vai juntar-se ao número dos mortos.
Mas o que será preferível?
Para todos os vivos, existe uma coisa que é certa:
Um cão vivo vale mais que um leão morto.
Porque os vivos sabem que hão-se morrer,
Mas os mortos não sabem nada de nada.
Para eles, não há qualquer retribuição,
Porque de tudo se esqueceram.
Os amores, as raivas, os ciúmes já desapareceram,
E nunca mais terão do seu lado
Aquilo que fizeram sob o sol.» (9,3-6)
Se o mau é castigado, isso acontece nesta vida, como é aceite entre os babilónios: uma injustiça imanente, que lhe trás certas calamidades terrenas. Mas em seguida:
«Não haverá qualquer acção, nem balanço, nem sabedoria
Na morada dos mortos para onde serás levado.» (Ecl. 9,10).
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Para a terra do não-retorno
Textos Sumérios e Acádios demonstram que a vida não é muito agradável nos infernos, quer bom ou mau. O texto da descida de Inanna aos lugares infernais data da primeira metade do segundo milénio. Dentro da mitologia suméria, Inanna, rainha do céu, vai visitar os infernos, onde reina a sua irmã Ereshkigal.Para aí chegar, tem de franquear sete portas e em cada uma delas um guardião retira-lha uma peça de vestuário ou uma jóia, mas só no fim da viagem é que ela se sente despida. Muitos vêem nesse despojamento o símbolo da nudez das almas, que surgem transparentes diante dos deuses.
Os acádios retomam esse mito, no qual Inanna se chama de preferência Istar, e acrescentam inúmeras precisões:
Para a terra do não-retorno, o reino de Ereshkigal,
Istar, filha de Sin, dirigiu o seu pensamento,
Para a casa escura, a morada de Irkalla,
Para a estrada de que se não pode regressar,
Para a casa em que os habitantes estão privados de luz,
Em que o pó é seu destino e a argila o seu alimento,
Em que não vêem nenhuma luz e habitam na escuridão,
Em que se vestem como pássaros e têm asas como roupagens,
E em que a porta e a fechadura estão cobertas de pó.






