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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Gótico

O termo «gótico» é historicamente complexo e está em mudança constante, tendo sido aplicado a estilos particulares de arquitectura, de arte e de literatura. No âmbito da literatura do final do século XVIII e do inicio do século XIX, designa, no campo da ficção, um corpo de escrita que enfatiza o medo, o terror, o suspense e o sobrenatural, em cenários como castelos e ruínas de um passado «medieval» distante. Os elementos do Gótico (conforme foram desenvolvidos nos romances, aproximadamente entre as décadas de 1760 e de 1820) influenciaram também os autores de filmes de ficção e de terror do século XX. Alguns aspectos da cultura popular, como a música e a moda, também se apropriaram de símbolos e motivos góticos no final do século XX.
O desenvolvimento do romance gótico foi ligado á escrita de Horace Walpole, Ann Radcliffe e Mary Shelley (Frankenstein), o que levou a que Punter afirmasse: «A ficção gótica é a ficção do castelo assombrado, das heroinas acossadas por terrores indizíveis, do vilão com um olhar tenebroso, de fantasmas, vampiros, monstros e lobisomens. Em termos mais gerais, o Gótico é associado aos aspectos mais bárbaros, selvagens, e indomáveis da existência humana, e também á desordem e á quebra das normas e das convenções sociais. Centrando a sua atenção nas áreas mais misteriosas, mágicas e sombrias das igrejas e dos cemitérios, as obras literárias góticas conjuram demónios e recuperam os mortos em forma de cadáveres, esqueletos e espíritos. A este respeito, os temas e preocupações da escrita gótica do século XVIII iam ao encontro da crescente ênfase na racionalidade, na prática e na compreensão cientificas. O Gótico explorava os poderes e as forças que excediam os limites do racional e que prendiam os leitores com fantasias empolgantes. No século XIX, a ficção gótica deslocou a atenção das presenças sobrenaturais e das aparições em castelos ou florestas para os horrores da perturbação psicológica nos recantos sombrios das cidades. A criminalidade e a loucura, juntamente com a tecnologia e o aparato da ciência, foram arrastados para mundos imaginários de medo e desordem. Entre os textos góticos do final do século XIX destacam-se nos de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro: Dr. Jekyll e Mr. Hyde, e o Drácula de Bram Stoker.
Botting (1996) sugere que o romance gótico forneceu um imaginário cultural para a exploração de temas de excesso e transgressão. Provocando sensações de medo e reacções emocionais excessivas, estas obras apresentavam os vícios, os desejos e as paixões que eram consideradas inaceitáveis para concepções dominantes da moralidade e das relações sociais ou domésticas apropriadas. As respostas críticas a estas obras apontavam o seu potencial subversivo como libertador de impulsos «bárbaros». Contudo, as dimensões transgressoras e perturbadoras do imaginário gótico também podiam servir para reforçar a atracção pelas normas sociais: «As relações entre o real e o fantástico, o sagrado e profano, o sobrenatural e o natural, o passado e o presente, o civilizado e o bárbaro, o racional e o fantasioso são cruciais para a dinâmica gótica do limite e da transgressão. Assim, esta forma literária pode ser interpretada como um registo de diversas inquietações presentes em várias fronteiras culturais, incluindo as que definem as relações entre os vivos e os mortos.
Durante o século XX, os temas e motivos góticos foram expandidos e transformados na literatura, nos filmes e na cultura popular. Muita da produção literária e cultural foi objecto da atenção de académicos, inclusive as obras de autores como Mervyn Peake, Angela Carter, Umberto Eco, Daphne du Maurier e Stephen King. No cinema os filmes fantásticos e de terror desenvolveram visualmente narrativas e imaginários góticos e levaram-nos para o domínio do choque visual, da violência explicita e da paródia, Grupos de contracultura, como os «góticos» da Inglaterra da década de 1980, mergulharam na música e em códigos de vestuário associados às convenções góticas. Dentro destas formações culturais complexas e variáveis designadas por «góticas», a morte, o morrer e o cadáver, os mortos-vivos, as presenças fantasmagóricas dos falecidos e os fragmentos de cadáveres têm sido considerados como fontes de terror, fascínio, inspiração e de uma identidade «alternativa».

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A Cultura Gothic e a Cultura Obscura

Ao longo da história, o termo Gótico foi usado como adjectivo ou classificação de diversas manifestações artísticas, estéticas e comportamentais. Dessa maneira, podemos ter uma noção da diversidade de significados que esta palavra traz em si.
Originalmente, Gótico deriva-se de Godos, povo germânico considerado bárbaro que diluiu-se aproximadamente no ano 700 d.C.. Como metáfora, o termo foi usado pela primeira vez no início da Renascença, para designar pejorativamente a tendência arquitectónica, criada pela Igreja Católica, da baixa Idade Média e, por consequência, toda produção artística deste período. Assim, a arquitectura foi classificada como gótica, referindo-se ao seu estilo "bárbaro", se comparado às tendências românicas da época.
No século XVIII, como reacção ao Iluminismo, surge o Romantismo que idealiza uma Idade Média, que na verdade nunca existiu. Nesse período o termo Gótico passa a designar uma parcela da literatura romântica. Como a Idade Média também é conhecida como "Idade das Trevas", o termo é aplicado como sinónimo de medieval, sombrio, macabro e por vezes, sobrenatural. As expressões Gothic Novel e Gothic Literature são utilizadas para designar este sub-género romântico, que trazia enredos sobrenaturais ambientados em cenários sombrios como castelos em ruínas e cemitérios. Assim, o termo Gothicism, de origem inglesa, é associado ao conjunto de obras da literatura gótica.
Posteriormente, influenciado pela Literatura Gótica, surge o ultra-romantismo, um subgénero do romantismo que tem o tédio, a morbidez e a dramaticidade como algumas características mais significativas.
No final da década de 70 surge a subcultura gótica influenciada por várias correntes artísticas, como o Expressionismo, o Decadentismo, a Cultura de Cabaré e Beatnick. Os seus admiradores ouviam bandas como Joy Division, Bauhaus, The Sisters of Mercy, entre tantas outras. Actualmente, a subcultura gótica permanece em actividade e em constante renovação cultural, que não se baseia apenas na música e no comportamento, mas em inúmeras outras expressões artísticas.
Nos meados da década de 90, viu-se emergir uma corrente cultural caracterizada por alguns elementos comportamentais comuns ao romantismo do século XVIII, como a melancolia e o obscurantismo, por exemplo. Na ausência de uma classificação mais precisa, esta corrente foi denominada Cultura Obscura. Porém, de forma ampla e talvez até equivocada, o termo Goticismo também é usado para denominá-la.
Há algumas semelhanças entre Cultura Obscura e Subcultura Gótica. Mas há também diferenças essenciais que as tornam distintas. Por exemplo, a Cultura Obscura caracteriza-se por valores individuais e não possui raízes históricas concretas como a subcultura gótica.
Entre os apreciadores da Cultura Obscura, é possível determinar alguns itens comuns, como a valorização e contemplação das diversas manifestações artísticas. Além de uma perspectiva poética e subjectiva sobre a própria existência; uma visão positiva sobre solidão, melancolia e tristeza; introspecção, medievalismo, entre outros.
Sintetizar em palavras um universo de questões filosóficas, espirituais e ideológicas que agem na razão humana, traz definições frágeis e incompletas de sua essência. Obscuro, Sombrio ou Gótico podem ser adjetivos de diversos contextos e conotações. Mas é, principalmente, o espelho que reflete uma personalidade.