Uma pessoa pode ser considerada divergente apenas porque sua conduta difere de uma norma socialmente aceite, mas também porque difere de um ideal moralmente aceite. Assim, embora um casamento feliz seja provavelmente excessão e não regra, a pessoa solteira ou infeliz no casamento é muitas vezes considerada anormal e socialmente divergente. Há tempos atrás, quando a masturbação era indiscutivelmente tão frequente quanto hoje, os psiquiatras consideravam essa prática como um sintoma e causa de insanidade. Portanto, a divergência social é um termo que abrange uma vasta categoria. Que tipos de divergência social são considerados como doenças mentais? A resposta é que são aqueles que provocam uma conduta pessoal que não está de acordo com regras de saúde mental psiquiatricamente definidas e impostas. Se a conduta calma é uma regra de saúde mental, a depressão e a excitação serão sinais de doença mental.
Colocada a loucura diante da razão como desrazão, e essa como monstruosidade (idade clássica) ou doença mental (modernidade), tem-se, então, que o louco e a loucura são, de certo modo, produzidos. A loucura é produzida pela razão, que, em sua normatividade, através de seus enunciados discursivos, define como 'loucura' tudo o que não corresponde à imagem que a razão tem de si mesma. Ora, esta é a questão que está na base do discurso moderno, que toma o louco como um monstro-animal e o transforma em doente mental/humano. A medicalização, por sua vez, representa um momento mais subtil de privação da experienciada loucura, na medida em que o conceito de doença mental permitirá constituir a noção de 'sujeito juridicamente incapaz', 'inofensivo' ou, então, 'perigoso'.
Tornando o louco um doente, a sociedade moderna de facto evita o aprisionamento do louco, mas aliena-o de si mesmo, despoja-o de sua humanidade, e, mais do que isso, de sua humanidade social, isto é, de seus direitos. E isto realiza-se em função de um conceito básico que antecede toda definição de doença: o conceito de cidadão. Com a medicina, o louco é excluído da comunidade da razão,da comunidade dos homens como sujeito possuidor de direitos. Deste modo, medicina e jurisprudência estão de mãos dadas, forjando uma exclusão, de tal modo que, sem exageros, pode-se dizer que, na sociedade moderna, o 'atestado do médico' é o 'cacete' com o qual se reprime o louco.
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