Foi este o tema escolhido pelo autor desta edição para divulgar o drama
que tem vivido desde que foi empurrado para tratamentos à base de
tranquilizantes.
Nuno Álvaro Vaz alerta para o perigo das benzodiazepinas, que conduzem a
um fenómeno bem conhecido, chamado habituação e dependência, com os
consequentes desequilíbrios psíquicos e desarranjos orgânicos. Diversos
relatórios clínicos têm confirmado que as benzodiazepinas podem provocar
ansiedade, derivando com muita frequência para o desespero e a
depressão. Há, pois, que esclarecer as pessoas com debates públicos.
Que este trabalho de Nuno Álvaro Vaz sirva de mensagem para todos
quantos directa ou indirectamente possam estar a ser vítimas dos
tranquilizantes.
Isto inclui-me a mim próprio, vitima desta teia maléfica armada por médicos, psiquiatras, psicoterapeutas e outros que tais………
Evitem os medicamentos, evitem a toxicodependência legal, sejam normais tal como são.
O meu pai sempre dizia: Somos como somos!
OS DOENTES E A FAMÍLIA
Quero sublinhar que me parece não serem, em princípio, os
tranquilizantes os causadores de certas desavenças e desentendimentos
nas famílias. Todavia, quando um tratamento se torna prolongado, os
doentes deixam de acompanhar o ritmo quotidiano da família, mas disso
não têm culpa, porque a sua natureza não os ajuda, Acontece que algumas
famílias não estão preparadas para compreender convenientemente os
seus pacientes. Gera-se, então, um certo mal-estar que contamina todo o
agregado familiar, Daqui, a necessidade de uma grande formação humana
por parte das famílias atingidas por estas dramáticas situações.
As expressões como «ele não está bom da cabeça, ele está insuportável,
ele é um maníaco, ele isto, ele aquilo», magoam os doentes e deixam-nos
ainda mais angustiados, mais sós, mais isolados e mais entregues à sua
sorte. E muito mais, quando o doente atingido se comporta sem que nada
justifique tais comentários.
Nisto, como em tudo, as vítimas são os mais fracos, e ninguém se deve
considerar uma vítima daqueles que sofrem, para justificar, muitas
vezes, a sua pouca compreensão, a sua saturação, a sua falta de
resignação.
Haverá que lutar, isso sim, ao lado do doente, apoiando-o, e
encorajando-o para tentar vencer a situação criada pêlos
tranquilizantes.
Famílias há — a maioria, felizmente — que uma vez envolvidas por dramas
desta natureza, tudo fazem pêlos seus pacientes, dispensando-lhes todo o
carinho, toda a compreensão e aceitando, com a maior resignação, a
situação. É desta forma que o doente deve ser acompanhado, suavizando,
com um sorriso, uma carícia, um beijo, todas as dores que o devoram
noite e dia.
Infelizmente, conheço casos de lares totalmente destruídos e de famílias
inteiras voltadas contra os seus doentes drogados. Vi também casos de
desprezo total, muito bem disfarçado, que não é fácil detectar a
qualquer observador.
Mas também conheço casos de doação total aos seus doentes, Casos, onde a
fé em Deus ilumina todo o agregado familiar e onde todos querem ser os
primeiros a estar junto dos seus doentes.
Vem aqui, a propósito, subscrever algumas passagens do livro «A VIDA
SEM TRANQUILIZANTES», da autoria do Dr. Vernon Coleman, traduzido por
Paula Reis e editado em Portugal pela TERRAMAR.
Logo na sua introdução, o autor começa por esclarecer que «o maior
problema de dependência da droga no mundo é criado por um grupo de
medicamentos, as benzodiazepinas, que são muitíssimo receitados pêlos
médicos e tomados por milhões incontáveis de pessoas perfeitamente
vulgares em todo o globo».
Embora só estejam à disposição há menos de um quarto de século, «as
benzodiazepinas, como o Valium, o Librium e o Mogadan, tornaram-se das
drogas mais pulares no mundo. Usam-se para ajudar as pessoas a
adormecer, para as ajudar a suportar a ansiedade e para tratar centenas
de sintomas físicos e mentais muito variados», considera Vernon
Coleman.
Mas diz mais. Lembra, por exemplo, que os especialistas em dependência
de drogas bradam que «livrar as pessoas das benzodiazepinas é mais
difícil do que desintoxicar dependentes da heroína». E, apesar deste
aviso, os médicos continuam a passar receitas com esse tipo de
medicamentos.
«Creio que a razão principal para tal acontecer é os médicos estarem tão
viciados em receitar benzodiazepinas como os pacientes estarem
viciados em toma-las»,
QUE EFEITOS PRODUZEM, AFINAL, AS BENZODIAZEPINAS?
No dizer de Vernon Coleman, desde que foram introduzidas nos mercados e
na prática médica, na década de 60, as benzodiazepinas, «têm quatro
efeitos principais».
Em primeiro lugar, «aliviam a ansiedade»,
Em segundo lugar, «têm uma acção sedativa e fazem com que as pessoas que as tomam se sintam sonolentas»,
Em terceiro lugar, algumas dessas benzodiazepinas são utilizadas no tratamento de «situações, como a epilepsia».
Em quarto e último lugar, as benzodiazepinas são também tomadas para «relaxar músculos tensos e contraídos».
Lembra também o autor do livro «A VIDA SEM TRANQUILIZANTES», que, para
clínicos gerais mal treinados, que enfrentam de repente uma epidemia de
doenças mentais, «aquelas drogas são uma resposta para muitos
problemas, se não para todos».
As benzodiazepinas contam-se, ainda hoje, entre as drogas mais
amplamente receitadas no mundo, sendo «o Librium e o Valium os cabeças
de lista mais vendidos».
Parece, até, que os primeiros sucessos obtidos com o Valium «convenceram
muitos médicos de que este era uma panaceia que servia para todas as
doenças conhecidas do homem», considera Vernon Coleman.
O uso das benzodiazepinas espalhou-se de tal forma, que qualquer pessoa
que vá ao médico «está condenada a uma receita deste tipo de drogas»,
porque as benzodiazepinas constituem, quase de certeza, «o grupo de
drogas mais receitado no mundo».
À medida que os anos vão passando, cada vez mais investigadores têm
escrito documentos mostrando que «as benzodiazepinas não são tão inócuas
como primeiro se pensava», alerta, no seu livro, o Dr. Vernon Coleman.
Infelizmente, ainda hoje, é prática corrente, nos hospitais, dar-se benzodiazepinas a pessoas internadas, por rotina.
«Tal como estão as coisas neste momento — considera Vernon Coleman — o
problema parece destinado a piorar muito mais, antes de se conseguir
algumas melhorias».
Na última parte do seu livro, Vernon Coleman chama a atenção para
algumas das formas que achou úteis para ajudar os pacientes a fazer
frente às pressões, dizendo: «Faça frente à culpa, ao aborrecimento, à
frustração, à ambição, ao medo», sem deixar de ficar atento aos
primeiros sinais avisadores, tais como:«dores de cabeça, indigestões,
erupções cutâneas, tonturas, dores de peito, diarreia, insónia, cansaço,
e ainda comportamento impulsivo, memória fraca, irritabilidade, etc».
Perante tal cenário deve tomar uma atitude: «relaxar-se», aconselha Vernon Coleman.
AS BENZODIAZEPINAS E A DEPENDÊNCIA
Há que deixar os pacientes e não pacientes bem esclarecidos quanto às
diferenças e efeitos, por exemplo, do Valium, que habitualmente é
utilizado como droga contra a ansiedade, e do Mogadan, que é utilizado
como comprimido para dormir.
Ambos têm constituintes básicos muito semelhantes, e os efeitos que produzem também são semelhantes.
O que eu digo não é, nem pretende ser, obviamente, uma prova científica,
mas há muita gente que argumenta que as benzodiazepinas não causam
dependência, e isso não corresponde à verdade. Que o digam os
fabricantes que põem à venda estes produtos, ainda se compreende. Mas
já não se compreende que o afirmem alguns medicos.
Não há que deturpar os factos e muito menos utilizar argumentos que não
podem encontrar suporte. Dizer que tais drogas conduzem apenas a um
«hábito» ou a uma «viciação», no fundo é a mesma coisa que dizer:
conduzem à «dependência».
Logo que se utilizem benzodiazepinas por um período superior a dez dias,
é natural que o paciente fique dependente. Comigo sucedeu assim, e com
muitos outros que eu conheci igual.
Há muitos médicos e muitos, e mesmo muitos doentes, que apoiam as minhas
afirmações. O que se lembra é que, apesar destas verdades e provas, as
benzodiazepinas ainda se continuam a receitar sem qualquer restrição,
provocando danos físicos e cerebrais que arruínam para sempre a saúde
das pessoas.
Diversos relatórios clínicos têm confirmado que as benzodiazepinas podem provocar ansiedade.
Na Holanda, por exemplo, segundo refere Vernon Coleman, um psiquiatra
contribuiu com um artigo para uma publicação médica holandesa, na qual
descrevia como «quatro pacientes, que tomavam um comprimido de
benzodiazepinas para dormir, tinham aparecido com uma ansiedade
acentuada e alterações psicológicas intoleráveis». O relatório
desencadeou centenas de outras queixas semelhantes acerca da droga. Isto
para focar apenas um de entre largas dezenas de casos semelhantes.
Há também provas — e muitas! — que as mesmas drogas podem provocar
depressão. E isto acontece — e digo-o por experiência — quando os
pacientes vivem exclusivamente num mundo escuro, irreal, onde se
encontram entorpecidos, derivando com muita frequência para o
«desespero e a depressão».
Deve, pois, dizer-se, por amor à verdade, que todas as pessoas que
tomarem qualquer benzodiazepina em grande quantidade, estão a caminhar
para um «perigo real», pondo mesmo em causa a sua vida.
Não me parece que alguém possa saber, com precisão, quais poderão ser
os efeitos, a longo prazo, que as benzodiazepinas poderão provocar no
cérebro das pessoas. Sabe-se que afectam gravemente a memória, dado que
foi já referido em muitos congressos de neuropsicofarmacologia
internacionais, como, por exemplo, o de Jerusalém, em 1982.
As benzodiapezinas podem ainda afectar — e quem o revela é o dr. Vernon
Coleman — a capacidade para gozar, para pensar, e ter efeitos poderosos
na personalidade das pessoas. Aliás, um psiquiatra do Royal Edinburgh
Hospital,em Edinburgo, disse que duas dezenas de pacientes de meia
idade, que haviam ingerido uma benzodiazepina, «com uma meia vida muito
curta», para os ajudar a dormir, se tinham tornado mais ansiosos. E
também há provas que as mesmas drogas também podem provocar uma certa
depressão e angústia.
AS BENZODIAZEPINAS E AS DEMAIS DROGAS
Para que todos quantos me lerem possam ficar bem esclarecidos, alerto
aqui para o relacionamento das benzodiazepinas e as outras drogas.
Não sei, penso também que muito poucos o poderão saber, o que poderá
suceder na ligação entre as benzodiazepinas e o álcool, barbitúricos,
drogas antidiabéti-cas, antidepressivos, cafeína, etc. Sabe-se que não
ligam bem, Por outro lado, cientistas e especialistas no sector afirmam
que, embora não provoquem de uma forma directa o cancro, podem fazer
com que «se desenvolva nas pessoas com predisposição para tal».
Portanto, ninguém poderá dizer com absoluta certeza se a benzodiazepina
provoca ou não o cancro.
Uma coisa, porém, é certa: «Quanto ao fígado, o consumo generalizado da
droga necessita de uma avaliação mais minuciosa dos testes da função
hepática, enquanto os pacientes estão a tomar, por exemplo Diazepam»,
revelam em relatório publicado no volume 27, Nº5, do Digestive Discases
and Sciences, Francis Tedasco e Luther Mills, doutores em medicina.
FACTORES DE RISCO DAS BENZODIAZEPINAS
O grande problema que envolve certos doentes que foram iniciados em
tratamentos à base de drogas do grupo das benzodiazepinas tem a ver com
a desculpa de certos médicos que, vendo-se acusados de estar a receitar
benzodiazepinas em excesso, desculpam-se logo, alegando que não passam
de «tranquilizantes menores», o que não é bem assim,
De facto, as benzodiazepinas não são, nem nunca foram, «tranquilizantes
menores», porque são potencialmente perigosas, quando tomadas em
grandes quantidades.
INTERROGAÇÕES AOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE
É ou não é verdade que os tranquilizantes levam a uma dependência tanto
ou mais amarga que a produzida pelas drogas ilegais, como a cocaína,
haxixe, marijuana, etc?
É ou não verdade que os tranquilizantes têm uma acção tóxica prolongada no organismo das pessoas?
É ou não verdade que os tranquilizantes actuam de forma negativa a nível cerebral, hepático, renal, muscular, etc., etc?
É ou não verdade que é mais difícil combater a dependência dos tranquilizantes, que a das drogas ilegais?
É ou não verdade que no mundo da medicina não há, por enquanto, nenhum
antídoto para resolver o problema provocado pela dependência dos
tranquilizantes?
É ou não é verdade que o uso excessivo e prolongado dos tranquilizantes
leva as pessoas a uma tal dependência e estado de desespero, que passam a
ser potenciais candidatas a levar o resto da vida com internamentos
constantes em hospitais e clínicas de desintoxicação?
Perante esta tão dolorosa quão chocante realidade, pergunta-se:
Por que razão não são esclarecidas as pessoas?
Por que não se fazem debates públicos a nível nacional, como acontece em relação às drogas ilegais?
Qual a razão para que se ataque só aquela e não esta, se ambas são idênticas quanto aos seus efeitos?
Por que se esconde tão dura realidade, permitindo que se vão destruindo milhares de pessoas, só no nosso país?
Por que se omite ao público um esclarecimento tão importante, a exigir
que a saúde não se perca e o bem-estar das pessoas se não degrade?
Porquê tanta passividade por parte das autoridades com responsabilidade
no sector, permitindo, com o seu silêncio, que tantas pessoas se tornem
escravas dos tranquilizantes?
Peço, muito especialmente aos homens da comunicação social, que tenham a
coragem de fazer um levantamento exaustivo das realidades sobre esta
matéria, que poderão observar nas Casas de Saúde, nos Hospitais e nas
Clínicas da Especialidade de doenças nervosas (Psiquiatrias), e nas suas
próprias residências, onde poderão ver, com os seus próprios olhos, que
uma boa parte dos pacientes envolvidos neste tipo de tratamentos, à
base de tranquilizantes, poderiam ter sido poupados.
Quantos dramas!... Quantas lágrimas!... Quantas angústias e tristezas as paredes dessas instituições não escondem!...
Encontrarão gente de todas as idades e estratos sociais a suplicar a cura para os seus males.
As Selecções Reader's Digest, de Agosto de 1990, relatam um
acontecimento que merece ser aqui abordado. Trata-se de uma consultora
médica, que, devido a uma doença incurável, teve de lhe ser amputada
uma perna na clínica Maio, dos Estados Unidos.
O Dr. Glover e o Dr. Brakovec receitaram-lhe, para acalmar as suas
dores tranquilizantes, para usar apenas num limitadíssimo período de
tempo pós-operatório. Como porém, não podia suportar as dores,
desobedecendo ao que lhe fora prescrito, continuou a ingeri-los.
Chegando ao conhecimento do Dr. Glover a atitude desta doente, aquele
repreendeu-a com certa dureza, dizendo-lhe: «Leonor, mais vale morrer
de cancro do que tornar-se uma drogada. Se não se desembaraçar
imediatamente dos tranquilizantes, perderá muito mais do que já perdeu:
todo o amor-próprio e por fim a própria vida».
No encontro distrital sobre Toxicodependência, realizado, em 18 de
Fevereiro de 1991, na Escola Superior de Educação, em Bragança, no
âmbito do Projecto Vida, depois de ter deixado a toda a assistência o
meu testemunho, dirigindo-me à Mesa que presidia, composta por alguns
médicos, sempre perguntei ao moderador do debate: «Senhor doutor: é ou
não verdade que os tranquilizantes são tão terríveis e nefastos para o
organismo, quanto o são as drogas ilegais, como a cocaína, a heroína e a
haxixe?» A resposta do médico foi bem clara: «Está fora de dúvida».
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