A expressão latina ars moriendi significa «a arte de morrer» e representa um corpus de literatura devota cristã, escrito durante os finais da Idade Média, que inclui várias reflexões pastorais e ascéticas sobre a morte e o morrer, e que se destinava a auxiliar o pecador comum no final da sua vida, na preparação para o inevitável. Os textos foram amplamente divulgados nos séculos XIV e XV, no âmbito de uma ansiedade generalizada, resultante das crises económicas e religiosas vividas durante aquele período, e representam uma apropriação laica da tradição da prática penitencial monástica.Os textos mais significativos são: opus tripartidum de praeceptis decalogri, de confessione et de arte moriendi («Obra tripartida dos preceitos do decálogo, da confissão e da arte de morrer») de Jean Gerson (1363-1429) e Tractatus ou Speculum artis bene moriendi («Tratado» ou «Espelho da arte de bem morrer», de Nikolaus von Dinkelsbuhl . O exemplo mais conhecido do género é um livro frequentemente reimpresso, Ars Moriendi, produzido originalmente nos Países Baixos, entre 1430 e 1440, que representa a luta de Cristo, da Virgem Maria, dos anjos e dos santos, de um lado, contra os demónios, do outro, discutindo o destino final do homem moribundo, confrontado com as tentações da descrença, do desespero, da impaciência, do orgulho e da ganância, todas opostas ás três virtudes teologias: fé, esperança e caridade. A obra é composta por cinco pares de xilogravuras que culminam na décima primeira representação da boa morte do cristão devoto, que escolheu o caminho da salvação.
Estas obras reflectem uma mudança na interpretação do julgamento divino, enquanto aplicado à humanidade em geral, e da salvação passível de ser atingida através das estruturas eclesiásticas institucionais, na direcção de uma teologia em que é o individuo, por si só, que está perante Deus e tem a responsabilidade pelas suas escolhas. Este ethos entra em conflito com a concepção escatológica tradicional dos quatro novissimos do homem (Morte, Juízo, Inferno e Paraíso), na qual estava implícita a noção de dum Juízo Final universal no fim dos tempos.
Estas fontes inspiram The boke os Crafte of Dyinge, cuja popularidade gerou imitações e adaptações, incluindo The Way of Dyinge Well (1534), de Thomas Becon; a Salve for a Sicke Man (1563), de William Perkins; e Disce Mori (1600), de Christopheer Sutton. A obra do bispo e teólogo anglicano Jeremy Taylor (1613-!667), The Rule and Exercises of Holy Dying (1651), que acompanhava The Rule and Exercises of Holy Living (1650), também se insere nesta tradição.




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