Quem não ouviu já falar
de vampiros, criaturas que buscam o sangue das suas presas na noite?
Contudo, nem tudo o que se diz corresponde à verdade e muitos são os
factos deturpados pela associação destes mamíferos a criaturas míticas
milenares.
Os
mitos com vampiros remontam há milhares de anos. Os mais antigos provêem
da Europa, mas estudos etnológicos revelam que praticamente nenhuma
cultura está isenta de conter no seu espólio criaturas medonhas
sugadoras de sangue, às quais se associou a imagem dos morcegos. Estas
criaturas míticas foram responsabilizadas, ao longo dos tempos, por
mortes pouco claras e por devastadoras epidemias, como a peste negra e a
varíola. Mas este folclore que liga os morcegos aos vampiros é
particularmente intrigante, na medida em que os mitos surgiram em locais
onde estas espécies de morcegos nunca existiram. Apesar de se assumir
que esta associação remonta às tradições antigas, a história indica que
ela é uma invenção humana recente.
Os europeus desconheceram a existência destes animais até ao século XVI,
altura em que os exploradores portugueses regressaram das Índias com a
primeira descrição de seres que se alimentavam de sangue e que mordiam
as pessoas durante a noite, comportamento que associaram ao das
criaturas das fábulas a que chamavam vampiros. Mas esta designação de
origem eslava, que significa “bêbado de sangue”, não foi prontamente
atribuída aos morcegos vampiros e só no final do século XIX as três
espécies foram descritas para a Ciência. Contudo, esta associação só foi
completada em 1897, quando Bram Stocker publicou “O Drácula”, uma obra
onde os vampiros se transformavam em morcegos, conjugando a mitologia
europeia com uma personagem histórica real – Vlad Tepes – um príncipe da
Valáquia (actual Roménia), com fama de sanguinário, que viveu entre
1430 e 1476. Não existem evidências que este príncipe tivesse o hábito
de beber o sangue das vítimas, mas sabem-se duas coisas – que no castelo
de Vlad Tepes não existiam vampiros e que estes mamíferos não são a
fonte dos mitos de vampiros do Velho Mundo.
Os vampiros são morcegos, cuja imagem está impregnada de informações
distorcidas por séculos de ignorância, mitos e superstição. O
enraizamento cultural destes conhecimentos condiciona os esforços
empreendidos no sentido de clarificar o papel destes animais nos
ecossistemas e de contrariar o declínio de outras espécies de morcegos
que acabam por ser afectadas. A maior parte das pessoas desconhece que
apenas três das cerca de mil espécies de morcegos que existem
actualmente alimentam-se de sangue, encontrando-se restringidas às
regiões tropicais da América Latina, desde o seu aparecimento, há cerca
de sete milhões de anos.
Mas vamos conhecer um pouco melhor estes
animais. A forma como os vampiros evoluíram permanece um mistério. Os
registos fósseis mostram que há muitos milhares de anos eles habitavam
as florestas tropicais, onde se alimentavam essencialmente de aves e
pequenos mamíferos. A chegada dos colonizadores europeus ao continente
americano, e especialmente do gado que com eles trouxeram, providenciou
aos vampiros uma nova e praticamente ilimitada fonte de alimento,
permitindo que as suas populações crescessem exponencialmente. A sem
precedente desflorestação da América Latina, na tentativa de aumentar a
área para explorações de gado, permitiu que esta tendência se
intensificasse, até ao ponto dos vampiros se tornarem numa séria praga
agrícola em muitas áreas. Todavia, em nichos não perturbados de
floresta, eles vivem actualmente como os seus antepassados – em
reduzidos grupos, alimentando-se do sangue de pequenos animais.
Das três espécies de morcegos vampiros que existem actualmente, apenas uma (a mais comum - Desmodus rotundus) preda exclusivamente mamíferos. As outras duas – Diaemus youngi e Diphylla ecaudata
– alimentam-se de diversos vertebrados, preferencialmente aves. Ao
contrário do que a indústria cinematográfica nos levou a acreditar, os
vampiros são animais muito pequenos e leves. Vivem em grutas, minas,
buracos de árvores e em edifícios abandonados, em colónias com cerca de
100 animais, mas que podem chegar aos 2000 indivíduos.
ão voadores rasos e fazem manobras espantosas, devido às suas longas e
estreitas membranas alares. Contrariamente aos outros morcegos, os
vampiros são grandes adeptos da locomoção no solo, sendo capazes de
correr com grande velocidade e dar grandes saltos, assumindo uma postura
bípede. Eles procuram as suas vítimas durante a noite, podendo voar
mais de 10 km nas suas buscas. Exactamente como localizam e seleccionam
presas individuais é desconhecido, mas certamente diversos factores
estão envolvidos, nomeadamente a sua excepcional visão. Adicionalmente,
as fossas nasais sensíveis ao calor permitem-lhes detectar as presas
através da radiação infravermelha por elas emitida e escolher as áreas
do corpo com melhor irrigação superficial e, por isso, mais
“apetitosas”.
A especialização alimentar condicionou a anatomia e fisiologia dos vampiros. Eles possuem um estômago fino, capaz de se distender e um intestino rodeado de grandes capilares que aumentam a taxa de absorção. Mas a adaptação mais espantosa prende-se com a composição da saliva, constituída por três ingredientes activos, que mantêm o sangue fluído - um anticoagulante, uma substância química que previne a aglutinação dos glóbulos vermelhos e uma última que inibe a constrição dos vasos sanguíneos sob a ferida. A mordedura é rápida, de modo a não alertar as presas, e o sangue é lambido (e não sugado) através de movimentos rápidos e contínuos da língua, durante cerca de 30 minutos. Durante este período, os morcegos ingerem o equivalente a duas colheres de sopa de sangue. Porque o sangue tem cerca de 80% de água, à medida que se alimentam os vampiros urinam, removendo o excesso deste líquido.
A especialização alimentar condicionou a anatomia e fisiologia dos vampiros. Eles possuem um estômago fino, capaz de se distender e um intestino rodeado de grandes capilares que aumentam a taxa de absorção. Mas a adaptação mais espantosa prende-se com a composição da saliva, constituída por três ingredientes activos, que mantêm o sangue fluído - um anticoagulante, uma substância química que previne a aglutinação dos glóbulos vermelhos e uma última que inibe a constrição dos vasos sanguíneos sob a ferida. A mordedura é rápida, de modo a não alertar as presas, e o sangue é lambido (e não sugado) através de movimentos rápidos e contínuos da língua, durante cerca de 30 minutos. Durante este período, os morcegos ingerem o equivalente a duas colheres de sopa de sangue. Porque o sangue tem cerca de 80% de água, à medida que se alimentam os vampiros urinam, removendo o excesso deste líquido.
Vivem numa cultura fortemente social, onde o
reconhecimento individual é muito importante. Uma vez que não podem
sobreviver mais de dois dias sem uma refeição, estes laços são
fundamentais para lhes garantir a sobrevivência, pois um vampiro pode
alimentar outro com regurgitações de sangue, quando solicitado. Este
comportamento é bastante vantajoso em termos adaptativos, tal como
acontece com a sua capacidade de adoptar crias órfãs. É um altruísmo
recíproco, muito raro entre os mamíferos, conhecido apenas nos cães
selvagens, nas hienas, nos chimpanzés e nos humanos.Os hábitos alimentares dos vampiros, que à primeira vista nos parecem repulsivos, podem de facto resolver ou atenuar alguns dos nossos problemas. Descobertas recentes acerca das propriedades anticoagulantes da saliva dos vampiros demonstram que esta possui um ingrediente vinte vezes mais poderoso que qualquer anticoagulante actualmente conhecido, o que promete o desenvolvimento de novos medicamentos de prevenção e combate de doenças cardiovasculares.
Mas apesar de serem animais verdadeiramente
fascinantes, os vampiros podem criar alguns problemas, nomeadamente
quando existem em grandes densidades junto de pessoas e animais
domésticos. Mordeduras ocasionais raramente prejudicam as vítimas, mas
mordeduras repetidas, especialmente em animais jovens, podem
enfraquecê-los, enquanto as feridas podem tornar-se focos de infecção.
Para além deste aspecto, tal como outros animais, é possível que os
vampiros contraiam raiva. Apesar da maior parte dos morcegos infectados
acabar por morrer da doença, alguns poderão sobreviver o tempo
suficiente para infectar as suas presas. Em muitas regiões da América
Latina as perdas económicas dos agricultores provocadas, anualmente, por
surtos desta doença nos bovinos, são imputadas aos ataques dos
vampiros.
Quando os vampiros não encontram o seu alimento de eleição, podem
utilizar presas alternativas, como os humanos, embora isto só aconteça a
pessoas que dormem ao relento. Estes episódios, embora esporádicos, e
na maior parte das vezes sem consequências, são suficientes para criar
um clima de histeria colectiva, despoletando verdadeiras “caças aos
vampiros”, que acabam por atingir todos os morcegos da área. Ao longo
das últimas três ou quatro décadas, foram iniciados na América Latina
programas de controlo de vampiros. Infelizmente, os resultados
resumem-se à perda incalculável de insectos altamente benéficos para a
agricultura, devido à utilização de venenos, e de morcegos inofensivos,
que se alimentam de frutos e néctar, muitos dos quais já se encontram em
perigo de extinção.
Será apenas através de programas educativos que a atitude pública perante os morcegos poderá ser alterada. Quanto aos conflitos entre o ser humano e os vampiros, para além de acções educativas, restam-nos campanhas de controlo bem planeadas. No entanto é importante lembrar que o actual comportamento alimentar dos vampiros é apenas uma adaptação às alterações dos seus habitat provocadas pelo Homem.
Será apenas através de programas educativos que a atitude pública perante os morcegos poderá ser alterada. Quanto aos conflitos entre o ser humano e os vampiros, para além de acções educativas, restam-nos campanhas de controlo bem planeadas. No entanto é importante lembrar que o actual comportamento alimentar dos vampiros é apenas uma adaptação às alterações dos seus habitat provocadas pelo Homem.








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