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domingo, 22 de julho de 2012

Histórias soltas, Testemunhos

Malditos medicamentos 

Os sintomas que eu notava com maior frequência e intensidade eram picadas no peito, tonturas e zumbidos nos ouvidos.
Como se não bastasse, ainda sentia dores musculares nas pernas, acompanhadas por uma "escamação" da pele, que me fazia supor ter desidratação.
Fui ao médico de clínica geral e ele disse que eu não tinha nada de especial. Na opinião dele eu era hipocondríaco. No entanto como era um médico que tinha o hábito de receitar por "atacado" prescreveu-me logo uma grande quantidade de medicamentos. Recordo-me apenas dos seguintes:

- Medipax - Stresstabs - Daflon - Doxion - Legalon - Capilarema - Magnesona - Sargenor 5

Estes são apenas os medicamentos de que eu me lembro. Ainda eram mais.
Assim, dados os meus sintomas e a "farmácia" que o médico me receitou, comecei imediatamente a pensar que deveria ter algum problema cardíaco, circulatório e dermatológico.
É óbvio que num quadro destes, um doente pode ser imediatamente considerado hipocondríaco. No entanto, quando o médico não tem respostas para nos dar e os sintomas persistem pensamos o seguinte: "Se não me é diagnosticado nada e os sintomas persistem, provavelmente tenho alguma doença que ainda não é conhecida da medicina".
O meu pensamento baseava-se em que as doenças já existem quando são descobertas. E enquanto a medicina não as consegue identificar, os doentes são considerados como tendo outra doença com sintomas semelhantes ou, pior ainda, não são considerados doentes.
A única certeza que eu tinha era que não me sentia bem, os sintomas eram múltiplos, não me era diagnosticado nada mas eram-me receitados medicamentos.
Ainda me lembro de ir à farmácia para aviar os medicamentos e o farmacêutico olhar para mim com olhar desconfiado e dizer:
- Estes medicamentos são todos para si?
- São.
- Mas você tem aqui vários medicamentos para o mesmo efeito.
- O médico é que mos receitou!
- Eu não lhe devia aviar os medicamentos, mas como foi o médico a receitar, a responsabilidade é dele.
 Passados alguns dias, comecei a sentir-me muito fraco. Pensei no que o farmacêutico tinha dito. Tinha ido fazer análises e já sabia o resultado. Tinha alguma anemia.
Disse à minha mãe para chamar o médico a casa, porque não me sentia bem para ir ao consultório dele.
A minha mãe não acreditou e disse que eu não queria fazer o esforço de ir ao médico.
- Irra! - Disse eu.
- Se eu estou a dizer que não consigo ir ao médico, isso quer dizer que eu NÃO CONSIGO IR AO MDICO!!! Percebeste ou tenho que repetir?
A minha mãe não acreditou muito, mas lá chamou o médico ao domicílio. Ele quando chegou viu as análises e perguntou:
- Que medicamentos andas a tomar?
- Aqueles que me receitou! E enumerei-os todos, bem como as respectivas posologias.
O médico disse:
- Olha! Tu tens uma ligeira anemia. Não é nada provocado pelos medicamentos que eu te receitei, mas já agora deixa de tomá-los e vais passar a tomar o seguinte:
E escreveu mais um "testamento" infindável de fármacos. A seguir disse ao meu pai:
- Olhe, não se importa de assinar aqui recibos de 6 (SEIS) consultas? Mas assine recibos salteados, para a numeração não ser seguida.
A caixa do meu pai pagava as consultas aos médicos, baseada nos recibos que os beneficiários assinavam. Era suposto haver boa fé de ambas as partes. Ora quem é o doente para se recusar a fazer o que o médico pede?
Este médico conseguiu rapidamente abrir consultório novo e passado pouco tempo mudar para outro consultório ainda mais recente, noutra localização.
Hoje consta que dá consultas até às 03:00h (três da manhã) e provavelmente continuará a pedir aos seus doentes para numa consulta assinarem 6 recibos.
É de referir que os doentes também são culpados, porque este médico é considerado "MUITO BOM PORQUE RECEITA MEDICAMENTOS MUITO CAROS".
É assim que a "saloiada" dos doentes classifica um médico!
Esqueci rapidamente esta "sanguessuga dos doentes" e comecei a consultar outros médicos.
No entanto eles diziam sempre que eu não tinha nada. Era tudo psicológico e os medicamentos seguiam-se:

- Tofranil - Victan - Tenormin Mite 50 - Xanax

O Xanax é um medicamento que actualmente é receitado, como panaceia para todos os males.
- Doi-lhe a cabeça? Vai tomar Xanax, que isso passa-lhe.
- Está preocupado com alguma coisa que lhe tira o sono? O Xanax resolve-lhe o problema.
- O seu filho de 10 anos anda com problemas na escola? Que tal começar já a tomar Xanax? Assim leva uns anos de "avanço" sobre as outras pessoas.
Para o diabo com o Xanax mais quem o receita! Esta porcaria de medicamento torna as pessoas dependentes, não resolve problema nenhum e em vez de ajudar ainda prejudica. As pessoas tornam-se completamente dependentes dele. E as doses vam sempre aumentando.
Comigo comecei pelo de 0,25mg, passei rapidamente para 0,5mg, 1mg, XR 1mg seguido de XR 2mg. -"Tenho que pôr fim a isto" - pensei eu. Só que é muito difícil. Eles atiraram-me a um poço sem fundo e agora sou eu que tenho de arranjar forças para saír de lá.
Por esta razão é que eu sou totalmente contra a utilização de medicamentos em problemas deste género.
Eu não sou médico. Mas sou doente, o que me dá a vantagem de SENTIR a inutilidade total destas "drogas". Não servem rigorosamente para nada. Apenas servem para camuflar as verdadeiras razões que nos levam à situação de agorafóbicos. Os problemas mantêm-se, ficamos menos sensíveis a eles mas continuamos com os sintomas. E como se não bastasse, cada vez tomamos maiores doses dessas mistelas.
Hoje, travo uma luta desigual contra o Xanax. Sinto a falta dele, mas recuso-me a tomá-lo. Anos a fio a tomar aquele maldito medicamento sem qualquer resultado prático, levaram-me a decidir deixar de o tomar definitivamente. Tenho de reconhecer no entanto que é uma decisão extremamente difícil de cumprir.
A minha situação actual é a seguinte:
Antes tinha problemas e não era dependente do Xanax. Agora continuo a ter os mesmos problemas e estou dependente do medicamento.
As pessoas que mo receitaram deviam indemnizar-me. Não resolveram nada mas quem gasta o dinheiro sou eu.

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