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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Livros - A Vida sem Tranquilizantes

O maior problema de dependência da droga que existe no mundo nada tem a ver com a heroína, cocaína ou marijuana. De facto, nada tem a ver com qualquer droga ilegal. O maior problema de dependência da droga no mundo é criado por um grupo de medicamentos, as benzodiazepinas, que são muitíssimo receitados pêlos médicos e tomados por milhões incontáveis de pessoas perfeitamente vulgares em todo o Globo.
Embora só estejam à disposição há menos de um quarto de século, as benzodiazepinas, como o Valium, o Librium e o Mogadan, tornaram-se das drogas mais populares no mundo. São tão comuns que se esvaziar as bolsas e as algibeiras em qualquer reunião, na qual estejam presentes mais de meia dúzia de pessoas, provavelmente encontrará um frasco desses comprimidos, pelo menos. Usam-se para ajudar as pessoas a adormecer, para as ajudar a suportar a ansiedade e para tratar de centenas de sintomas físicos e mentais tão variados que uma lista completa pareceria o índice de um manual de medicina.
Os especialistas em dependência de drogas bradam que livrar as pessoas das benzodiazepinas é mais difícil do que desintoxicar dependentes da heroína.
E, contudo, os médicos, tanto nos hospitais como na sua clínica quotidiana, continuam a passar receitas dessas drogas. Há dez anos eu previ que as benzodiazepinas iriam provar ser criadoras de dependência. As bibliotecas médicas, em todo o mundo, estão atravancadas com documentos que descrevem os problemas ligados a estas drogas. E, contudo, ainda são receitadas em quantidades enormes.
As estatísticas relativas ao consumo das benzodiazepinas são pasmosas. Os números variam de país para país, mas um em cada dez indivíduos toma uma benzodiazepina, em média. A despeito do facto de se saber que essas drogas só funcionam bem se forem tomadas durante um curto espaço de tempo, há milhões de pessoas que têm andado a tomar delas há mais de um ano. Na verdade, há milhões que as têm tomado durante vários anos. A maior parte dos consumidores a longo prazo é constituída por mulheres, na sua maioria com mais de quarenta anos, mas a quantidade de pessoas envolvidas é tão grande que nenhuma categoria de seres humanos parece excluída. Homens, mulheres, crianças — todos tomam benzodiazepinas.
De há vários anos a esta parte grupos de pressão têm andado a combater de forma a ajudarem os indivíduos dependentes a libertar-se dos seus grilhões farmacológicos. Mas a luta tem sido uma lástima. Tão depressa um indivíduo se liberta de uma das benzodiazepinas, logo outro paciente, algures, se torna dependente delas.
Creio que a razão principal para tal acontecer é os médicos estarem tão viciados em receitar benzodiazepinas como os pacientes estarem viciados em tomá-las. Não me parece que o problema possa alguma vez ser resolvido através de uma persuasão delicada ou tentando desabituar os pacientes dessas drogas.
Acho que a unica solução genuína, a longo prazo, é perceber-se o que são essas drogas e evitá-las como à peste. As aplicações para as benzodiazepinas são modestas e realtivamente insignificantes. Podemos passar sem elas. Não me parece que o problema da benzodiazepina se resolva até os pacientes do mundo inteiro se unirem e esclarecerem que não estão dispostos a aceitar receitas desses perigosos produtos.
Neste livro tentei fazer várias coisas. Primeiro, tentei explicar exactamente porque acho que a pressão e o stress, na nossa sociedade, são tão grandes que muitos milhões de pessoas precisam de ajuda. Segundo, expliquei, com pormenores precisos, porque estou convencido de que as benzodiazepinas não constituem uma resposta segura. Muitas das informações provenientes de pesquisa que aqui incluí têm permanecido escondidas em publicações médicas do mundo inteiro, até agora. Terceiro, dou informações muito específicas àqueles indivíduos que já tomam benzodiazepinas e querem deixar de as tomar. Livrar-se dessas drogas não é fácil, mas pode conseguir-se. E, por fim, providencio uma boa quantidade de informações sobre a maneira como julgo que as pessoas que sofrem de stress e ansiedade podem combater os seus receios e problemas mais activa e eficazmente. Espero que este livro ajude a tocar o dobre a finados pelas benzodiazepinas. Mas também espero que ofereça a esses milhões de pessoas que as tomam uma alternativa viável.

VERNON COLEMAN
Londres, Setembro de 1984

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