sexta-feira, 28 de maio de 2010
Ritos funerários e memoriais
A secularização afectou de modo determinante muitos ritos funerários e memoriais contemporâneos, tendo permitido, por exemplo, a realização de serviços não religiosos em locais seculares. De modo idêntico, os memoriais espontâneos em locais onde tenham ocorrido mortes violentas podem conter uma mistura de objectos, uns religiosos e outros seculares. Estas cerimónias são, simultaneamente, mais abrangentes e menos formais do que no passado. Podem também incluir uma maior participação de ordem pessoal no rito e no memorial, como se as pessoas estivessem a recusar um padrão uniformizado da morte, ao mesmo tempo que negam a despersonalização de grande parte dos restantes aspectos da cultura ocidental contemporânea.
Os obituários padronizados já não são considerados suficientes e as pessoas que perderam alguém anseiam por uma forma mais individual e imaginativa de ritual, eventualmente uma que elas próprias tenham concebido. Isto pode bem ser um reflexo de uma crescente falta de confiança nas instituições religiosas tradicionais e na sua capacidade de satisfazer os sentimentos da gente comum.
Na sociedade moderna, a morte é impessoal: o leito de morte foi substituído pela cama de hospital, o cadáver é retirado do lar. A cremação implica o tratamento do morto num local específico, numa capela sem carácter religioso definido, e é frequentemente orientada por sacerdotes desconhecidos, ou mesmo por um tipo de figura não religiosa. O procedimento tem lugar, talvez, a alguma distância da comunidade e oferece muito pouco no que se refere á lembrança material do falecido, o que afinal encaixa muito bem no moderno entendimento da morte. Não é surpreendente, portanto, que alguns dos que atravessam o luto tenham sentido a necessidade de desafiar a impessoalidade da morte, inventando as suas próprias práticas e ritos funerários, sentidos assim como mais autênticos e imbuídos de significado. Um bom exemplo deste fenómeno aconteceu aquando da morte de Diana, princesa de Gales, em Setembro de 1997, que provocou um extravasar de pesar por todo o Reino Unido. Apesar dos numerosos serviços religiosos, e de o funeral em si ter sido uma cerimónia cristã, não foi a religião que mobilizou a grande maioria das pessoas durante este período. O sentimento de perda foi expresso maciçamente através das flores, das longas filas para assinar os livros de condolências e dos ajuntamentos para assistir ao cortejo fúnebre. Houve locais específicos da Londres a Althorp que ficaram cobertos de memoriais, os quais frequentemente incluíam mensagens e brinquedos, reflectindo a crença de muitos numa relação pessoal com Diana, uma pessoa que havia feito de tal modo parte do interesse dos media que entrara também na vida quotidiana de muitos.
Um tal acontecimento pode ser interpretado como uma prova de secularização, já que, em épocas anteriores, tudo teria sido marcado por uma só cerimónia religiosa, partilhada por muitos, espalhados pelo país. Por outro lado, houve muitas cerimónias, mas não do tipo religioso mais tradicional, e talvez muitos dos que assim celebraram o seu luto estivessem a obedecer às regras de uma religião informal para cuja construção estavam a contribuir, ao mesmo tempo que dela faziam uso. Talvez não se devesse tanto falar na secularização como de uma substituição da religião no tratamento da morte, mas de uma religião secularizada em busca de novos entendimentos de como a morte pode ser encarada na sociedade moderna.
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