quarta-feira, 5 de maio de 2010
Exumação
A ideia de que, uma vez enterrados, não se deve perturbar o sono dos mortos é bastante generalizada. A exumação dos restos mortais é vista, em muitas culturas, com horror e repugnância, sendo frequentemente associada a fantasias cinematográficas de múmias egípcias e zombies em decomposição. Esta ideia não é, porém, universal, como demonstra o uso frequente, na Europa, de criptas onde os ossos exumados dos mortos eram guardados.
A prática da exumação pode ser determinada por diversos motivos. Em algumas culturas, a dupla inumação implica a exumação, a limpeza e um novo enterro dos ossos dos mortos, de forma a verificar-se se as suas almas progrediram na jornada além-túmulo.
Nas sociedades ocidentais modernas, as autoridades podem exigir que um cadáver seja desenterrado para determinar a causa da morte. Por vezes, a exumação assume também um significado nacionalista, em especial quando se trata da transladação dos corpos de soldados do campo de batalha e dos cemitérios de guerra, para serem enterrados em solo pátrio.
A exumação pode veicular sentimentos de identidade comunitária e de luta política pelo reconhecimento de grupos étnicos, como no caso da transladação de corpos de aborígenes, enterrados originalmente em territórios longínquos e que nada tinham a ver com o seu solo ancestral, numa espécie de regresso a casa. E um exemplo semelhante foi a devolução que a Universidade do Nebraska concordou fazer dos restos mortais de 1700 índios norte-americanos que tinham servido para estudar as populações nativas do território anteriores à chegada dos europeus.
Em alguns casos, a exumação é utilizada como arma política: veja-se o exemplo da exumação dos corpos de padres e freiras, pela República, durante a Guerra Civil de Espanha. Nesse período, os republicanos espanhóis consideravam que a Igreja, durante séculos, tinha imposto um poder tirânico sobre os pobres. A exumação dos cadáveres dos seus santos constituiu, assim, um acto de alvitamento – a exposição pública daqueles restos mortais em decomposição pretendia revelar a natureza corrupta da Igreja. No primeiro aniversário da execução de Carlos I de Inglaterra, o tema da punição dos mortos foi particularmente evidente. A 30 de Janeiro de 1661, os cadáveres de Oliver Cromwell e de dois companheiros seus foram desenterrados e as suas mortalhas penduradas na forca até ao pôr-do-sol. Ao crepúsculo, foram retirados e os seus corpos decapitados e enterrados sob o patíbulo, as suas cabeças foram espetadas em estacas junto a Westminster Hall.
Mais recentemente, e na Europa em particular, tem-se gerado alguma controvérsia quanto à necessidade de exumar cadáveres de forma a reutilizar o escasso e precioso terreno dos cemitérios. A escassez do terreno tem resultado na cedência de campas por períodos limitados, de quinze, vinte ou, por vezes, cinquenta anos.
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