Quando dizemos que não há meios de escapar da solidão, não queremos dizer que isso é difícil, mas que é completamente impossível. O que as demais pessoas conhecem a nosso respeito são apenas as nossas bocas movendo-se diante delas, e as ideias que constroem a partir disso; nas suas mentes, isso resulta numa visão de nós mesmos tão deturpada quanto a visão que temos delas, que nos parecem existir apenas do lado de fora; e não nos enganemos, nós passamos essa mesma impressão. Contudo, assim como elas, nós existimos primariamente num nível privado que é inacessível, significando que todo e qualquer contacto sempre acontecerá de forma indirecta. Isso nos permite compreender que não há situação em que seria possível escapar da solidão. Apenas podemos supor que um contacto direto seria agradável, mas isso é algo que imaginamos pelos verbos que vemos sair de outras bocas, que se assemelham ao que nós próprios murmuraríamos. Talvez fosse agradável ter um contato directo com a consciência de outra pessoa — e não apenas com seu vocabulário —, mas isso é impossível. Em relação ao íntimo uns dos outros, somos todos estrangeiros vivendo seu exílio pessoal. Cada qual está trancado em si próprio, e só conhecemos o que os demais dizem de si, nunca eles próprios; e nós também nunca seremos conhecidos, apenas ouvidos sobre aquilo que dizemos de nós mesmos. Em suma, a solidão é a consciência de que vivemos sozinhos em nossos corpos, e só podemos entrar em contacto com outros indivíduos por meio de gesticulações que nossos corpos executam — exactamente como se cada qual morasse sozinho numa casa, e só pudesse entrar em contacto com outros indivíduos por meio de cartas, sem jamais conhecer o interior de outras residências.
André Díspore Cancian
2009
quinta-feira, 15 de abril de 2010
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