É comum argumentar-se que, á medida que uma sociedade se torna mais industrializada e modernizada, igualmente se torna mais secularizada. O papel de Deus diminui enquanto os agentes humanos se tornam mãos responsáveis pelo seu próprio futuro, em conformidade com os princípios do capitalismo e do individualismo. À medida que o progresso cientifico avança, a par do domínio da racionalidade e da eliminação da superstição, a religião, supostamente, tem de recuar para a periferia dos interesses sociais. Contudo, esta tese está, obviamente, longe de ser verdadeira. Muitas sociedades modernizadas e de alto nivél cientifico continuam a ter uma relação muito forte com a religião. Exactamente do mesmo modo que um individuo pode combinar a fé no divino com o interesse pela ciência, e pela sua aplicação, também uma sociedade pode ser simultaneamente moderna e religiosa. Aqueles que são a favor da tese da secularização apontam para o facto de os funerais, no passado, terem sido muito mais elaborados do que são hoje, e terem feito um uso muito mais explicito dos símbolos religiosos. Mas é importante notar que mesmo esses funerais antigos faziam muitas mais alusões a temas não religiosos, em especial os relacionados com laços familiares. E as pedras tumulares das pessoas importantes afirmam tanto uma dimensão politica como de fé religiosa. Também é difícil saber-se qual era a verdadeira força das crenças religiosas dos que viveram em tempos antigos, em relação, nomeadamente, à imortalidade, quando comparados com crenças de hoje, no ocidente. Os levantamentos estatististicos feitos pelos EUA, desde 1972, sugerem um crescimento e não o contrário, da crença numa vida após a morte.É certamente verdade que muitos dos ritos funerários do Ocidente parecem bastante secularizados. Os cemitérios são frequentemente concebidos de acordo com uma ordem mais industrial, de modo a serem mais fáceis de manter em boas condições, com um mínimo de mão-de-obra, e a popularidade crescente de incineração tem sido tomada como uma expressão da perda da fé na ressurreição dos mortos. Pode-se presumir que seja por esta razão que algumas religiões recusam a cremação. Mas outros argumentam que, se o Todo-Poderoso é capaz de ressuscitar os mortos também não se sentirá constrangido quando confrontado com o pó do cadáver corrompido numa caixa de madeira enterrada.
Provavelmente, um dos indicadores mais directos da mudança de atitude em relação á morte como resultado da secularização é a crescente experimentação em torno de novas formas de tratamento do corpo dos mortos e dos rituais do luto, frequentemente em oposição ás formas religiosas tradicionais. Assim, regista-se no Ocidente um novo interesse, com vista a serem os enlutados a assumir os procedimentos do funeral, enterrando eles próprios os corpos, em ambientes naturais, recorrendo a rituais funerários de idealização pessoal e dispensando por completo os serviços da indústria do ramo. Estas cerimónias são frequentemente seculares, mas também é comum não o serem, e são vistas como mais expressivas da religiosidade inerente a cada um dos indivíduos do que das fórmulas da religiosidade tradicional. Naquelas partes do mundo que agora atravessam uma rápida industrialização e modernização não têm surgido muitas provas de secularização e de recusa religiosa. Pelo contrário, os mensageiros da modernidade são frequentemente os membros mais religiosos das comunidades, e as perspectivas tradicionais da morte mantêm-se muito fortes.




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