Os contornos dos homicídios são agora mais claros, e impressionantes. Pelas 19.30 horas de domingo, Bissau foi sacudida pela deflagração de uma bomba, de fabrico tailandês e accionada por telemóvel, que matou o chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, Tagmé Na Waie, e destruiu o quartel-general. A bomba teria sido adquirida na Guiné Conacri por militares próximos do presidente da República, Nino Vieira, quando aquele visitou o país vizinho, no mês passado, para solicitar, à Junta Militar que tomou o poder em Dezembro de 2008, a libertação de Ousame Conté. O filho do antigo presidente está detido por envolvimento no narcotráfico que assola a região.
Com as ruas da cidade ocupadas pelos militares, por volta das 4 da madrugada um grupo de soldados toma de assalto a residência privada de Nino Vieira, com o apoio de um comando oriundo de Mansoa - a cerca de 80 quilómetros de Bissau -, liderado pelo actual porta-voz dos militares, José Zamora Induta, vice-chefe do Estado-Maior da Armada. A segurança presidencial não impediu o disparo de rocket nem a rajada de G-3 que abateu Nino, atingido no rosto e no peito. A autópsia confirmaria o requinte da execução: já cadáver, Nino foi espancado, primeiro, e brutalmente golpeado com catanas enraivecidas, depois, pelos algozes que - deixando a primeira dama, Isabel Vieira, refugiar-se na embaixada de Angola -, passaram ao saque da casa. Selvajeria só explicável pelo ódio profundo que alimentou tensões até ao desfecho anunciado pelo próprio Waie: "Se eu morrer, o presidente também morre". Assim foi.
Na busca de causas para o massacre, os analistas evocam as rivalidade antigas entre os dois homens, jamais resolvidas e com laivos étnicos. "Eram arqui-inimigos há muito", diz Patrícia Magalhães Ferreira, do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais (IEEI), recordando que a animosidade "já vinha do tempo do golpe de Estado de Ansumane Mané, em 1999, que tinha por aliados, na altura, Tagmé Na Waie e Zamora Induta". Embora associado ao tráfico de armas - Nino demitiu Mané da chefia de Estado-Maior, acusando-o de permitir o tráfico de armas para os rebeldes do Senegal, gerando motins no Exército -, o golpe terá sido, outrossim, a tentativa de afirmação política dos balanta.




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